o livro de capa vermelha
grifei minhas partes favoritas e baixei todas as músicas da trilha sonora do meu livro favorito. era pra ser teu presente de aniversário, como se fosse um pedacinho meu.
nós não sobrevivemos até lá
quis te contar que, quando você descia aquele morro enquanto eu te esperava no final da rua, torcia para que meus olhos funcionassem como uma câmera e gravassem seus movimentos. porque eu não queria te esquecer. eu não quero te esquecer.
gravei na minha memória, num cantinho aonde ninguém pode chegar, o dia em que passamos horas e horas rindo de qualquer coisa e cantando músicas aleatórias deitados juntos na sua cama. repensar esses momentos agora me dói. quis te entregar o livro da capa vermelha porque ele me ensinou, quando nova, um pouquinho do que era o amor. e vi tanto desse amor em ti. todo o perdão, as responsabilidades, o começo avassalador e o final numa mesa de café da manhã num domingo em que nós mal conseguíamos nos olhar nos olhos.
esse ano faço vinte e dois. minhas costas pesam muito mais, parece que a tristeza se alojou nas vértebras e eu tô tão contaminada por ela que a vontade era de fugir de mim mesma. queria ter visto o mar com você. andado pela areia e visto o por-do-sol. queria ter viajado de carro pra qualquer lugar só pra poder brigar por quem colocaria a próxima música. no meu caderninho de poemas com uma abelha gigante na capa existem frases e frases sobre seu sorriso. sobre o que teríamos sido. na manhã do nosso fim, eu te disse: me perdoa não dizer muito, sou melhor escrevendo. e eu acho que é por isso que nós demos dois abraços demorados e cheios de vontade de chorar. porque ainda tem tanto a ser dito. tanto a ser sentido. tanto a ser vivido. e te ver correndo me destroça.
toda vez que o amor chega, o abraço com receio por saber que, eventualmente, ele sairá correndo. hoje foi a sua vez. talvez o peso que se aloja nos ossos do meu joelho seja o de forçar as pernas para ficar em amores que não me cabem. mas te olhei e vi o tamanho exato da minha grandeza pra amar.
toda vez que o amor chega, tento arrumar a casa e recebê-lo de braços abertos. da vez em que você chegou não foi diferente, acho que a gente se perdeu em diálogos que deixaram de acontecer. “não existe nada de clichê na nossa história” você disse. você me contou também sobre estar apático. acredito que a apatia é o seu coração usando o sistema de defesa mais brutal possível: depois de sentir tanta dor, é melhor não sentir nada. espero que você ainda guarde um pedacinho de mim no seu coração depois do fim. torço para que a gente se encontre depois desse vendaval.
arrumo a casa na esperança de você voltar
o livro vermelho continua na minha estante
a gente se perdeu tanto
que talvez, um dia, se encontre
e aí
meu bem
espero que não seja tarde demais pra te contar que todas as histórias que grifei pra te mostrar eram unicamente sobre amor.
porque quando eu penso em amor
só penso em você.










